quinta-feira

O tempo



Não é estranho o modo como o tempo passa. Muitas vezes tão rápido que nem percebemos, outras vezes demora tanto que parece que o relógio congelou. Fico tentando imaginar como seria o tempo em forma humana, e a imagem que me vem à mente é um garoto magricela com o rosto cheio de espinhas. Aquele tipo de garoto que acha que diversão é incomodar todos ao seu redor.
Quando o “garoto-tempo” percebe que estamos esperando por algo, ele acha divertido prolongar ao máximo a nossa espera, tentando nos deixar cada vez mais nervosos, angustiados, impacientes. E, ao ver o estado em que nos deixa, ele aponta para nossa cara e ri.
E quando estamos nos divertindo, querendo que aquele momento continue por bastante tempo esse garoto, invejoso como ele só, passa correndo, corre o mais rápido que pode, para que nossa diversão termine logo, e só então ele fica satisfeito novamente.
Mas, na minha opinião, o Tempo é um menino triste. Triste sim, pois ele é solitário. Ele vê tudo acontecendo ao seu redor, pessoas se divertindo, se preocupando, agradecendo, pedindo, namorando, mas com ele nada acontece. Ele está condenado a ficar sempre num canto, espiando, aquele garoto que todos olham, apontam dizendo: “Olha aquele garoto espinhento!” e isso é tudo.
Imagine como é você ver todos se divertindo, rindo, conversando, e você não poder se juntar ao grupo, ter de ficar sentando só olhando. Provavelmente também iria querer que o tempo passasse logo.
E, bom, acho que esse menino não gosta de ver os outros de férias, sem preocupações. Esse é o único jeito de explicar como minhas férias passaram tão rápido, e eu não fiz nem metade das coisas que tinha planejado.
A culpa é do garoto espinhento...

sábado

O conto da sereia


Era um dia normal na praia. O sol lá em cima no céu, tão forte que se poderia fritar um ovo no asfalto. As crianças brincavam na areia, protegidas por enormes guarda-sóis, as mulheres tomavam banho de sol e os homens tomavam cerveja, conversavam e olhavam para as mulheres.
Mas bem pra direita, no finzinho da praia, só havia duas pessoas. Um poeta sentado numa pedra, com um bloquinho e um lápis na mão, olhando para o mar em busca de inspiração. E um homem esfomeado, agachado na areia procurando restos de comida de uma festa que acontecera no dia anterior.
Então, o homem esfomeado parou de procurar por migalhas e também encarou o mar, com um misto de assombro e fascínio no olhar, pois as águas estavam se afastando como se uma tsunami estivesse a caminho. Os dois ficaram olhando paralisados enquanto uma onda enorme vinha em direção à praia. Mas não era uma onda comum, ela vinha lentamente, e quando chegou na praia desmanchou-se delicadamente, deixando na areia uma linda espuma, que lembrava algodão doce e uma sereia.
Os dois homens se aproximaram e perceberam que ela estava desacordada. Então começaram a discutir o que fazer com ela. O poeta, encantado, dizia que a colocaria em um aquário em sua casa, e ela seria sua musa inspiradora. E o esfomeado, que não parava de olhar para a cauda da sereia, achava que deveriam assar a cauda, que parecia muito suculenta.
Enquanto eles discutiam, a sereia acordou, olhou para os homens com interesse, seus lindos olhos azuis brilhavam de curiosidade. E quando uma onda a alcançou, ela mergulhou, sem que os homens percebessem. Quando eles finalmente notaram que ela não estava mais ali, só puderam ver os cabelos pretos da sereia sumindo em uma onda.
Então, o poeta sentou-se novamente na pedra e, inspirado, começou a escrever. E o esfomeado voltou a procurar comida na areia, ainda pensando na cauda da sereia. E, enquanto isso, as crianças brincavam na areia, as mulheres tomavam banho de sol, os homens tomavam cerveja, e, possivelmente, alguém fritava um ovo no asfalto...




Escrito pela Larissa de 2008;
editado pela Larissa de 2011.