A menina desceu as escadas correndo, a felicidade da descoberta estampada em seu rosto. Parou logo atrás da mãe, que estava preparando o almoço.
- Mamãe! Olha isso!
- Agora não posso filha, tenho que cuidar a panela. O tom de voz foi suave, e as palavras ficaram ao lado da criança, olhando-a com o canto do olho, com medo de sua reação.
- Mas mãe...
- Depois Manuela.
Manuela foi para o quarto, e ficou admirando a caixinha recém descoberta. Era tão bonita, pensou enquanto a levantava para ver como era embaixo. Ficou lá, imaginando o que a linda caixa conteria, já que não podia abrir. Devia ser algo tão lindo quanto a caixinha.
A mãe a chamou para o almoço, e esqueceu completamente de que a filha tinha pedido para ela olhar alguma coisa. A tarde, sentiu falta da filha, que não estava correndo pela casa como era o costume. Foi procurá-la.
- Por que não foi brincar querida?
- Estava te esperando mãe. Você disse que ia ver depois, lembra?
Você não se esqueceria de mim, esqueceria?
- Claro filha, o que você queria me mostrar?
- Isso mãe! As palavras não foram ditas, foram sorridas, tamanha era a alegria da menina. Ela esticou as mãos e entregou a caixinha à mãe.
Quando viu a caixa, foi como se um filme passasse na frente da mãe, era um filme feito de lembranças.
A primeira delas era de quando ela tinha 5 anos. Ao voltar do enterro do vovô, vovó subiu para o sótão com uma pequena caixa coberta por lindos desenhos. A então garota – Julieta – ficou muito curiosa, e pediu se podia ver a caixinha. A avó, que sempre tinha as palavras certas, respondeu:
- Quando você estiver pronta, você verá.
- Mas por que eu não posso ver agora?
- Porque ainda não está pronta.
Ela sempre teve esse ar misterioso, acho que era por isso que Julieta gostava tanto dela.
A segunda lembrança era no hospital, ela estava sentada ao lado da cama, e a avó respirava suavemente ao seu lado, como sempre fazia. Ela acordou e olhou para o lado, sorriu.
-Acho que agora você está pronta.
- Pronta para quê?
Ela não respondeu, apenas sorriu e estendeu a mão para a gaveta, a abriu e tirou uma pequena chave de lá. Ela era antiga e com alguns detalhes que pareciam anjos. Julieta pegou a chave sem entender o que aquilo significava.
- O que é isso vovó?
- Você está pronta. Disse ela com um suspiro.
Então ela virou para o lado e dormiu, com um sorriso no rosto. Uma semana depois, ela não acordou.
Julieta guardou a chave na gaveta de meias, pois não sabia o que fazer com aquilo. Mas agora ela conseguia entender.
Você está pronta.
Ela pegou a menina pela mão.
- Vem comigo.
Elas foram até o quarto e a mãe pegou a chave, ela estava no conto da gaveta, e foi difícil encontrá-la.
Ela colocou a chave no cadeado e girou.
O cadeado se abriu.
Dentro da caixinha havia algumas fotos antigas, um broche, um par de brincos e uma carta.
Manuela pegou o broche e ficou admirando, e Julieta começou a olhar as fotos. Em todas elas estava a sua avó e mais um homem que a moça não conhecia.
- Quem é esse homem bonito, mamãe? É o bisavô?
- Não querida, é um amigo da sua bisavó. Onde você encontrou a caixinha amor?
- Lá em cima mãe, no meio de um monte de caixas. Disse a menina apontando para o teto.
- Por que você não vai brincar lá fora?
- Está bem mamãe.
A menina saiu pulando do quarto, mas não antes de dar uma última olhada nas fotos.
- A bisa tinha um amigo bonito.
Quando a menina saiu, Julieta pegou a carta e começou a ler.
Querida filha, ou Julieta:
Por favor, não fique braba comigo, preciso que entenda que tudo que vou lhe contar aconteceu numa época totalmente diferente da sua, com diferentes costumes e em um lugar diferente: na Itália.
A letra era desenhada, com um traçado fino e levemente inclinada para a esquerda, e Julieta reconheceu imediatamente a letra da avó.
O que vou lhe contar agora não contei a mais ninguém, e sei que será difícil para aceitar, mas espero que você não me odeie por isso.
Você deve ter visto as fotos que estavam na caixa, e, se o fez, deve estar se perguntando quem é homem das fotos. O nome dele é Artur e a história que vou contar é sobre mim, sobre ele, e sobre um amor impossível.
Eu conheci Artur quando tinha 17 anos, nesse período já estava noiva do Joaquim, mesmo contra minha vontade. Quando vi Artur, senti meu coração acelerar, e percebi que era com ele que queria passar o resto da minha vida. Nós estávamos num baile, e Joaquim não tinha podido ir, pois estava com um resfriado, mas insistiu para que eu fosse, e foi o que fiz. Como estava sozinha na mesa, Artur me convidou para dançar, e me contou que ele trabalhava na casa onde estava havendo o baile, e morava ali também. Durante a dança eu torci o pé, e ele gentilmente me levou para seu quarto para colocar gelo no meu tornozelo.
Você deve imaginar como isso era errado na época, mas eu era apenas uma menina, e não me importei com o que as pessoas poderiam falar.
O quarto onde ele me levou era pequeno, com uma cama e um pequeno guarda-roupa. E simplesmente não pude evitar, eu estava realmente apaixonada por ele, e acabei dormindo com ele.
Felizmente ninguém viu e pude me sentir tranqüila por algumas semanas até que descobri que o que fizemos havia dado frutos. Eu estava grávida. Fiquei apavorada, e pedi para que o casamento fosse realizado mais cedo. Joaquim não entendeu o porquê, mas atendeu meu pedido, em uma semana nós nos casamos e eu pude dizer que o filho que esperava era de meu marido.
Um ano e meio depois, quando eu achei que minha vida tinha se acertado, eu voltei a encontrar Artur, fomos convidados para um almoço na mesma casa do baile. Ao chegarmos lá Artur estava nos esperando, vestindo um elegante paletó. Não pude esconder meu espanto, para disfarçar comecei a brincar com Antonieta, que estava no meu colo.
Depois desse almoço nos encontramos muitas vezes ainda, e foram nessas ocasiões que tiramos as fotos que estavam na caixa. Eu nunca contei que Antonieta era sua filha, mas acho que ele sempre soube. Então nós nos mudamos para o Brasil, no dia anterior a partida nos encontramos pela última vez com Artur. Ele pediu para falar a sós comigo, e Joaquim deixou, pois confiava muito no amigo.
Ele me levou até a fonte no jardim da casa e me entregou o broche e os brincos, e então fez a pergunta que eu temia que fizesse.
- Joaquim é o pai de Antonieta?
Eu hesitei por um instante, pensando se deveria contar a verdade. E ele entendeu.
- Eu sabia que ela era minha filha. Disse com um lindo sorriso e lágrimas nos olhos.
- Como sabia?
- Ela tem o meu nariz.
Quando estava saindo, ele me segurou pela mão.
- Por favor, fique.
- Você sabe que eu não posso. Adeus.
Eu fui embora sem olhar para trás. Acho que se o fizesse não conseguiria ir. Depois desse dia nunca mais o vi.
Não entenda mal. Joaquim foi um marido excelente, mais do que eu merecia. Mas a paixão da minha vida foi Artur.
Agora está em suas mãos decidir se você quer procurá-lo ou não.
Está é minha história, agora é a sua vez de escrever a sua.
Quando colocou a carta na caixa, Julieta estava tremendo.
- Vou tomar banho mamãe.
- Está bem querida.
Ela secou os olhos com as costas das mãos e foi preparar o jantar.
“... agora é a sua vez de escrever a sua.”
Larii, é o texto daquela proposta de redação!!
ResponderExcluireu sabia que conhecia =D
adorei! que bom que tu reativou o blog, sempre gostei das tuas histórias! beijooo
É esse mesmo!
ResponderExcluirE um dos motivos de eu voltar pro blog, foi ver o seu um dia desses, deu uma saudade...
beijo